Peraê! Eu sou palmeirense!

Não, essa não é uma história verídica. Isto é um trabalho escolar, um conto. Resolvi postar pra vocês aqui pois achei agradável, enjoy.

Miguel saiu de casa em direção ao bar – era Sábado, nada de trabalho. Sentou-se à uma mesa pequena e pôs-se à procurar o garçom pelo bar. Não o encontrou, mas reconheceu um amigo, que vinha em sua direção.
– Eaí, Miguel, há quanto tempo, hein!?
– Opa rapaz, pois é, como vai a vida?
– Vai bem, exceto pelo meu “timão”, rê rê… E contigo?
– Não poderia estar melhor, com o meu “verdão” liderando… e se continuar desse jeito to crendo que o campeonato é nosso…
– Altos e baixos da vida… o problema do Corinthians é essa diretoria… O técnico antigo também acabou com o time… Mas agora que esse Júlio chegou, to pondo a maior fé nele…
– Que nada, teu time não tem futuro, é péssimo e sempre será…
– Ah é? To indo daqui à uma hora pro jogo… Vamos fazer o seguinte… Eu to sem o meu carro, que tá no conserto. Se o Corinthians vencer o São Paulo hoje, você me leva no próximo jogo, e ainda assiste comigo, junto da torcida.
Miguel pensou bem. O Corinthians estava entre um dos últimos, a diretoria era péssima, e os jogadores piores ainda. Se perdesse mais dois jogos, seria eliminado do campeonato.
– Beleza! Hoje quem paga a conta sou eu!
Comeram, beberam, conversaram e depois Carlos teve que se despedir. Miguel pagou a conta e foi para casa. Esperou o horário de transmissão do jogo pela TV para assistir. Ele nunca iria se arrepender tanto de uma aposta.
A campanhia toca. Miguel olha pelo olho-mágico e abre a porta.
– Eaí Miguel, tudo pronto?
– Eu ainda apronto uma contigo…
– É, mas enquanto isso você vai ter de se contentar com o jogo do Corinthians. E com essa camisa que eu comprei pra você.
– Sai pra lá, o combinado só foi, no máximo assistir ao jogo com você…
– Ah, veste aí…
– Nem morto.
Miguel manteve sua palavra. Chegaram uma hora antes do jogo começar, mas mesmo assim já haviam muitas pessoas.
Enquanto procuravam um lugar para ficar, Miguel notou o olhar ameaçador dos torcedores.
– Passa essa camisa pra cá.
– Ué, você falou que não queria…
Passa logo.
– Tá bom, tá bom…
O jogo começa. Miguel tenta disfarçar, e pelo visto ninguém o nota. Quando o 1º tempo termina, ele dá graças à Deus por ainda estar vivo. Mas o intervalo termina, e sucessivamente, o 2º tempo. O narrador parecia estar empolgado.
– E é escanteio para o Palmeiras… Daniel se prepara para a cobrança… Ele chuta… Junior cabeceia… É goooooooooooooooooooooooool… do Palmeiras! Junior aos sete minutos do segundo tempo…
A torcida vibra, mas não Miguel. De repente, ele é empurrado. Cai por cima da torcida. Levanta-se, vê o tumulto no portão de acesso ao estádio: os torcedores empurram as grades, enquanto os policiais tentam conter a multidão. Ele fica parado, olhando o confronto. Ele não havia visto os policiais que estavam vindo para a torcida. Ele corre, é sua única saída, mas mesmo assim é pego por um dos policiais.
– Baderneiro, hein!?
– Não! Peraê! Me solta! Eu sô Palmeirense, pô!
– Palmeirense? Que nada, você vai é em cana, e pelo menos essa noite você passa na delegacia, isso eu posso lhe garantir.
O policial leva Miguel para dentro de campo, onde estão os outros policiais. A torcida vê um rapaz sendo levado nas algemas para dentro de campo. Os comentários logo surgem.
– Ele atirou uma garrafa no juiz! Eu vi!
– Não! Pior! Ele é palmeirense!
A torcida vaia. Ele é levado para a delegacia.
– Baderna, hein? – diz o delegado – dá uns tabefes nesse safado, e deixa ele no mínimo uma semana numa cela.
– Ei! Peraí! Não fui eu não! Eu não sô corinthiano não, eu sou palmeirense, pô!
Os policiais caíram na gargalhada.
– Palmeirense? Você é preso num tumulto, na torcida do Corinthians, com uma camisa do Corinthians e fala que é palmeirense?
– Não! Eu não tava tumultuando não! Me empurraram, não tive nem tempo de me levantar direito e me prenderam!
– Isso é verdade? – perguntou o delegado ao policial que havia prendido Miguel.
– Eu o vi tumultuando.
– Põe esse safado numa cela, logo, tira ele daqui.
– Ei! Peraí! Eu tenho como provar!
– Como?
– Minha avó, ela sabe que eu sou palmeirense, ela também é!
– E você tem como chamar ela aqui?
– Só preciso de uma ligação.
– Deixa ele ligar pra a avó dele aí – disse o delegado à um policial – mas que não demore – dirigindo a voz à Miguel.
Miguel ligou para a avó, e explicou tudo. Ela teria de vir para a delegacia provar que ele era palmeirense. Esperaram durante 2 horas para que Dona Guilhermina chegasse. A senhora subiu os dois degraus da delegacia com muita dificuldade e sentou-se em uma cadeira em frente ao delegado.
– Então, Dona Guilhermina, a senhora é palmeirense?
– Ô, meu filho… Sou de São Miguel dos Reis… Uma cidadezinha de São Paulo… Lugar lindo, passei minha infância toda lá…
– Não, minha senhora, eu estou perguntando de que time a senhora é! – disse o delegado.
– Quê? Se eu conheço São José? Ahhh… São José… Eu já fui pra lá sim… Foi lá que eu conheci meu primeiro amor… Ah Aderbal… Quanta saudade… – suspirou a velhinha.
– Ííííí… Ô Adeílson, traz lá o baderneiro pra ver se ela reconhece o rapaz – disse o delegado à um policial.
Cinco minutos depois chega Miguel, algemado, e com alívio ao ver a avó.
– Vó! Vó! Sou eu vó, seu neto, Miguel! Fala pra eles que eu sou palmeirense, fala!
– Quem?
– Seu neto! Miguel!
– Hein? Manuel? Ahhh… Meu esposo… Manuel… Que saudades… Tão novo, se foi, coitado…
– Manuel? Esposo? – estranhou Miguel.
– Já chega. Tira esse pilantra daqui! – disse o delegado.
Miguel reluta, não quer voltar para a cela. Os policiais quase o levam da sala, quando Dona Guilhermina reage:
– MIGUEL! MIGUEL! MEU NETO! Há quanto tempo meu filho!
Depois disso ela muda sua expressão. Leva a mão ao peito e cai no chão, morta. O policial estava certo: pelo menos aquela noite Miguel passou na delegacia.

 

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